sigNature
tait moi
experimentar de novo a ausência do eu.
escondê-lo, calá-lo, fingir que não está lá, abrir-lhe a porta e deixá-lo ir dar uma volta pelas voltas das noites, pelos caminhos da recolha.
enquanto isso ele já não oprime, não incomoda e não orgulha, não magoa, não pesa.
é deixá-lo leve e calado a dançar.
dar-lhe um papel e uma caneta.
dar-lhe muita estrada.
dar-lhe muita música e muito álcool.
Embalá-lo em verde.
intrigado, o eu deambula pelos campos.
o eu reaprende o silêncio.
o eu esquece as respostas.
o eu, insuspeito, pensa em não voltar.
pensa em tu, ele, nós, vós, eles.
somos todos o mesmo, pensa ele,
mas ninguém quer ser eu.
matinas
chego. passada a contemplação, a curiosidade, a paranoia, o medo, tudo o resto que me há de sofrer. chego para ser elevada. resta-me o preciosismo de uma morning song , só para mim. animalesco, o instinto guarda-se na razão e no carinho. algures com a luz da manhã que tardamos guardar.
encontramos, é um facto, enquanto vasculharmos, mais lama que pérolas, ou é ao contrário. emocionem-se e chorem (até mesmo ao fim do video)com
aquilo que me emociona e faz chorar. mas se acham que o fim é isso então sigam os Godspeed You Black Emperor até
aqui.(Não há folclore gótico que chegue aos pés da verdadeira angústia destes gajos. da nossa. diurna. hoje. a ficção gótica dá-nos uma noção de imortalidade, a ficção cientifica uma noção de efemeridade)
galáxias como grãos de areia
Hoje enfiei a mão dentro de um pacote de batatas fritas que estava em cima da mesa da sala. Não tinha batatas. Tinha fósseis, restos de pequenos seres do passado disfarçados de lascas de raizes nocivas e invenções descartáveis.
os deuses protegem-me a casa, um buda em pedra da india protege a janela, uma espécie de duende da amazónia, em cabaça, penas e sementes guarda-me a porta, uma outra espécie de duende colorido em madeira, mexicano, comprado no "el buen amigo" e oferecido em território partilhado por espíritos indios e irlandeses, abre-me os braços.
os elementos estão comigo, o som e a dança, o tempo e o espaço, de enormes e disformes, estão distribuidos em moléculas e átomos que me metem um passo diante do outro, tão certo como o sol nascerá amanhã. às vezes muito, às vezes demais.
às vezes calo-me em reverência perante o vento, a neblina da madrugada, a água salgada, o mocho que caça por cima da minha cabeça, Bastet que dorme enrolada no meu sofá, esperando o próximo ciclo de morte e ressurreição. emociono-me frequentemente com ficções, o suficiente para ficar de olhos molhados, sorrindo e contemplando escondida a sua beleza. muito maior do que eu, todo este redor participa numa saga teológica onde a minha memória é o centro, o principio e o fim, a experiência organizativa, o espírito do caos.
estas mitologias que habitam a minha sala, as minhas muitas salas, traçam nos seus segredos a Arvore da Vida, e deixam-me habitar a sua história como se fosse minha. eu também lhes guardo a casa.
with a twist
se a vida te dá limões faz limonada. sempre gostei deste dizer e sempre gostei de limões.
e com a
spoonful of sugar makes the medicine go down.
a vida dá
twists and turns em torções karmicos numa espécie de fuga para a frente.
é fechar os olhos e "bazas d'lum".
aprender e pensar fora da caixa e fazer e levar os outros a fazer e deixar de lado pessimismos e outras coisas que provocam azia e rugas.
ando a fazer um curso intensivo de história de arte e a planear o doutoramento, o que implica x elevado a 1000 de complicações e escolhas e dúvidas, e ando entusiasmada com tanto que quero saber sobre o mundo.
vamos lá ver se as burocracias e os sonhos não se enlaçam nos meus pés...
sarkarmico
nem mais um! à data do meu último post, um exercício porreirito enquanto ouvia Tom Waits, só mesmo o destino poderia igualar este grande mestre das misérias num grande a-ha!-julgavas-que-era-só-escrever-poemas-giros-sobre-as-misérias-então-toma-lá-disto:
veio a varicela e a cara cheia de chagas e o olho inchado, veio o horror de ter contaminado meia cidade e poder desenvolver lesões cerebrais, veio o telefonema das cobranças, veio o tiro lá na rua que matou o único mitra amigo, veio os dois tralhos de seguida a descer a calçada da Glória (hmmm, justiça poética?) veio o parto falhado da minha gata e quatro cadaverzinhos com a alma encomendada, veio o aumento da gasolina, veio a nódoa de café no pijama lavado.
voltou a machadada na vida social e a chuva que não pára, a caleira torta que me inunda a sala e a mesa cheia de medicamentos.
veio o silêncio de quem ainda precisava de mim.
só não vem o pesadelo porque estou a vivê-lo. só não vem o sonho porque a taulada dos antiestaminicos não deixa.
Closing time

Sirva mais uma rodada de misérias, se faz favor, com limão.
Sem gelo, puras e duras.
Enquanto arranho o cérebro às voltas meigas entre as músicas, e arrumo o equilíbrio entre as distâncias e as ausências, essas sacaninhas fugidias… É pois! Não discuta, homem! Sirva lá isso que temos sede e daqui a pouco fecha.
Enquanto faço as contas com os limites do sono e o fundo dos bolsos, e arranjo palavras trocadas para facilitar as coisas.
E mais uma para si também, para brindar com a gente. Não adianta negar, vamos arrastar daqui as esperanças combalidas pelos colarinhos, se elas se negarem a vir a bem. Não é hora para delicadezas tontas, a fingir sensibilidades marginais ou novelescas. Não há luzes, nem câmaras. Acção? Tarde demais. E daqui a pouco fecha.
A voz? Já foi, é o costume. Eu pago a conta dela, não se preocupe, que isto é família. Não aguenta muito, e com os anos parece que fica pior. Já murmurou tantas vezes as promessas que já são delírios e já gritou tanto os pesadelos que já são reivindicações. A luta é que continua. Só essa é que me faz companhia toda a noite, quietinha e muda. Não é de muitas falas, mas é do coração. Do nosso.
À nossa!
Que dia é hoje? Quer dizer, tecnicamente hoje… Qual é o número deste sol no mês inteiro? É que tenho coisas combinadas, pormenores a acertar, com o ano e tem mesmo que ser tecnicamente hoje. A noite ainda não foi, e anda sempre atrasada.
Ainda tenho tempo para mais uma, daquelas de traçar a língua, para aquecer a ilusão por dentro antes do desencanto lá fora. Só mais uma para acabar. Para o caminho se juntar aos meus pés quando saltar deste banco alto demais para as minhas ambições.
Vá lá, pago no acto da entrega…
galvanismo ou a ausencia de referencias
era uma vez uma mulher que ouviu muito, aprendeu a ler e escreveu a sua imaginação. escreveu uma história de meios homens e meios monstros, de mulheres nulas e mulheres mortas, de homens moribundos de culpa e homens errantes de desejo. resultou em muitas teses, memórias e filmes. e o mundo gira. e as histórias contam-se às crianças e os adultos escrevem teses. o mundo gira com os meios monstros e as meias mulheres e meios homens que escrevem os seus meios pesadelos. victor ou victória. reza a história.
guts
que é como quem diz entranhas... uma justiça amoral e cega, sem letras nem leis, uma cedência à nossa mesma medida nua de papeis. we don't play god. não nunca dá bom resultado. nós não sabemos nem temos nunca nada de verdade. só não sabemos. andamos à toa, todos. por dentro somos todos iguais. só muda o que escolhemos a dada altura. com as devidas consequências. sim. fracos e inúteis, reduzidos a medidas meias de metades. mas essas poucas que são. uma ética. sabemos nós mais disso? eu sei. não procuro a verdade.